Antônio e Antônio
Luis Fernando Verissimo
Antônio tinha uma coluna social no jornal, que ele assinava “Antonius”, mas o seu negócio mesmo era vender santos barrocos para grã-finas. Seus fornecedores roubavam santos barrocos de igrejas do interior, principalmente de Minas, e Antônio aproveitava suas conexões na alta sociedade para vende-los por um bom preço. Geralmente já tinha um comprador quando recebia um santo, de sorte que a peça roubada passava pouquíssimo tempo em suas mãos. Mas aconteceu de uma compradora voltar atrás num negócio, alegando falência súbita do marido, e o Antônio ter que ficar com um santo em casa até negociá-lo com outra. Não seria por mais de uma noite. O santo roubado era um Santo Antônio magnifico.
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No meio da noite, Antônio, que morava sozinho, ouviu um ruído vinda da sala do amplo apartamento que decorava com o dinheiro ganho no comércio dos santos e foi investigar. Deu com um homem de pé no meio da sala, segurando as duas partes de uma pequena escultura que derrubara no chão e quebrara. O homem parecia ser de madeira. Vestia um hábito de madeira. Se não fosse o seu tamanho, Antônio juraria que era... Mas claro que era. A estátua de Santo Antônio em tamanho natural. Com movimento. E voz!
- Desculpe – disse o santo. – Acho que quebrei esta... Este... Isto.
- Tudo bem – disse Antônio. – Eu ia jogá-la fora, mesmo. Neste apartamento, nada tem mais de seis meses. A não ser eu, claro, mas eu mudo de personalidade com as estações.
Antônio estava calmo. “Estou sonhando”, pensara. “Por que me preocupar, se isto é obviamente um sonho?” Perguntou:
- O que você está fazendo aqui?
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Santo Antônio colocou os pedaços sobre a mesa de acrílico, abriu os braço com dificuldade e um ranger de madeira antiga, e disse:
- Eu é que pergunto. O que estou fazendo aqui?
Virou-se, mecanicamente, para um lado e para o outro, para que seus braços abertos abrangessem a grande sala, e continuou:
- Nada contra a sua casa, que é muito bonita, mesmo sendo um pouco... despojada. Gosto do estilo clean, apesar de custar uma fortuna. Você não imagina como nada é caro. Mas eu preferia estar de volta na minha igrejinha, cheia de floreios ocos e anjos carcomidos, tão atravancada, a pobrezinha. Me leve de volta.
Antônio convidou o santo a sentar-se, mas ele recusou. Porque não conseguiria se dobrar ou talvez porque desconfiasse que as cadeiras feitas de tubos e tiras plásticas não aguantariam o peso de uma estátua de madeira.
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O santo ficou de pé. Antônio sentou-se e começou sua catequese:
- Pense no seguinte: lá na sua igrejinha, quem via você? As mesmas beatas de sempre. Pessoas sem o menor discernimento estético, que vão à igreja por devoção ou desespero e não têm ideia do que você vale. Talvez um turista ou dois o apreciassem, se conseguissem distingui-lo dos anjos apodrecidos. Só. Você viveria escondido, lá, na obscuridade, por toda a sua vida, até virar serragem. Pois eu vou lhe proporcionar um público de alta classe. Você será admirado. Estará num ambiente refinado, à altura do seu valor, com iluminação perfeita. E, sem querer apelar para a chantagem sentimental, com tratamento anticupim de último tipo assegurado.
- Mas eu sou o santo da renúncia, o que resistiu as tentações... Esse é o meu valor. E ele seria o mesmo no nicho de uma grã-fina ou escondido na minha igrejinha. Ou sua opinião é que a virtude, como o som e a cor, só existe se for percebida?
- Estou falando de valor artístico, não de caráter. E a filosofia me dá herpes. Pense no seguinte...
- Por favor, me leve de volta.
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Antônio perdeu a paciência.
- Não posso. Você vale muito dinheiro. E como vou chegar na igrejinha e pedir para aceitarem de volta o que eu mandei roubar?
- Deus perdoará todos os seus pecados, dos quais mandar roubar é relativamente o menor. Ele perdoará sua cupidez, sua duplicidade, sua soberba...
- Não esqueça minhas piadas.
- E suas piadas, e você poderá levar uma vida limpa. Clean. Uma vida de renúncia, como eu. Me devolva. Devolva todos os santos que você mandou roubar.
- E depois me retiro para o monastério? Eu não saberia o que fazer com meus roupões com dragões bordados. Não pense em mim como um saqueador. Pense em mim como um disseminador de beleza. Eu resgato vocês das ruínas e os transformo em estrelas. Estrelas!
- Nos devolva! Renuncie! Se arrependa!
- Quer saber de uma coisa? Chega.
- O que você vai fazer?
- Acordar.
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Antônio acordou pensando: “Saco. Nada pior do que sonho com moral”. Mas quando passou pela sala viu, em cima da mesa de acrílico, os dois pedaços da escultura quebrada.
Domingo, 14 de novembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.